Dicendi

25/03/11


Um blog como tantos outros. Um blog que me permite partilhar com o mundo o que me apetece. Sempre gostei de escrever, pelo menos desde que me veio parar às mãos uma caneta e uma folha de papel. Os poemas que descrevo não foram escritos para ninguém, nem sobre ninguém. Alguns dos textos são opiniões que a determinada altura senti necessidade de manifestar publicamente.

Não sigo nenhum padrão, nem nenhum script... abuso da versatilidade, porque me convém e porque não me canso de lutar contra o estereótipo do poeta, do romancista, etc. , por isso, aposto na variedade, no fait-divers, que entre outras coisas, são factos não necessariamente importantes, mas decididamente interessantes.
Henrique


Golf
Golf
posted by Henrique at 12:43

O HOMEM PARA ALÉM DO GENERAL

É apenas um Homem, militar de carreira, General de posto, mas… é muito mais do que isso, ainda… na sua vida, pautada por sucessos, responsabilidades assumidas e dignamente executadas, aqui em Portugal e nas terras de África, como militar. Muito cedo mostrou que conseguiria chegar longe… e chegou. Foi atleta olímpico, numa modalidade nobre, a esgrima. Foi campeão várias vezes e ainda o é. É campeão na sensibilidade, na escrita e na devoção, que emprega às causas que defende. Poucos conseguem despir a farda de tão alto posto e juntar-se aos demais, falando a sua língua, comendo à sua mesa e partilhando as  suas memórias, alegrias e tristezas. Os livros que escreve reflectem o seu estado de alma, o conhecimento, as pessoas que ama e o seu pensamento… como poucos.

Hoje teve um dia triste, uma batalha que contava ganhar. Não conseguiu, apenas porque não dependia de si. A sua outra metade partiu, num até já. Os caminhos percorridos lado a lado, durante anos e anos ficaram temporariamente suspensos. Num até já. Conhecendo-o bem, muito bem, sei que as memórias que durante mais de 50 anos os uniu, lhe darão a força necessária para continuar a sua missão. Porque esta missão sempre foi a dois. Quem partiu deixa a saudade, mas leva consigo a promessa de que continua aqui presente e continuará depois, como sempre aconteceu. Lado a lado, de mãos dadas. "Não é Quim?"
posted by Henrique at 12:40

20/12/09

DIZEM QUE É UMA ESPÉCIE DE NATAL...

Chegou o Dezembro. As ruas, iluminadas de cor e artefactos alusivos ao Natal, que se aproxima, vão-me fazendo recuar no tempo, ao tempo da minha meninice. O Natal na minha tenra idade era um Natal diferente, diferente nas gentes, nos brinquedos enlatados, nos comboios a pilhas Tudor, que os faziam percorrer o número 8 infinitamente.

Até o Pai Natal… bem… isto do Pai Natal deixou de fazer sentido, quando apanhei a minha querida mãe a vestir-se de encarnado e com um barrete a pender para um dos lados. No primeiro dia de aulas a seguir às férias natalícias, todos os meus colegas de Sala de Aula (ainda não havia “turmas”) ficaram a saber que a minha mãe, afinal… era o Pai Natal.

Fui idolatrado durante alguns dias, depois tive de andar a fugir dos tipos, por supostamente… os ter enganado. Ia caindo em desgraça. E então eu, que tinha uma leve tendência para a vitimização. Actualmente, muitas famílias abrem os presentes ou prendas (isto de presentes parece uma chamada para uma oral) à meia-noite, outros abrem antes do bacalhau e outros abrem no dia a seguir às garrafas vazias. Lá em casa era sempre no dia seguinte, pela fresquinha. Não era a seguir às garrafas porque os meus pais bebem pouco álcool (graças a deus).

Eu era sempre “martelado” com caixas de Lego, umas construções em madeira (com instruções em espanhol), uns carros maravilhosos da Matchbox, que ao fim de dois dias já as portas faziam parte do passado. Suspeito que ainda me tocaram umas cuecas com desenhos animados e uns sapatos tipo “Eléctrico da Carris”, ou seja, eram iguais à frente e atrás... Os anos vão passando… e nós também. Hoje tudo é diferente, para melhor, ou talvez não. É diferente. Antigamente enviavam-se postais de Boas Festas, cartas por avião (os envelopes tinham umas risquinhas) e usava-se o telefone preto. Agora, envia-se emails, fala-se por telemóvel e ninguém guarda as sms numa gaveta do móvel da sala. É tudo diferente.

As crianças são dominadas pela tecnologia de ponta, pelas avalanches de publicidade alusiva à época, incriminando assim os pais na luta desalmada por tentar convencer os filhos de que aquilo não presta. Pensam eles… de nada serve. Mas tudo isto é lindo, quando falamos de Natal; tudo é aceitável, quando estamos nesta quadra. Mas… o que me fere a alma é assistir nos supermercados àqueles pais, que tanto desejariam levar aos filhos uns brinquedos iguais aos dos seus amigos, comprar um jogo para a PSP ou Playstation, despenderem de 50,00 euros por um jogo de computador… enfim… não podem, não compram. Mas estamos a falar de prendas de Natal, agora imaginem algumas mesas na noite da Consoada!

É nesses momentos, que quando olho para a minha frente, me lembro, que nesse preciso momento, uns estão bem e outros nem por isso. Não será, para muitas famílias, a noite de Natal uma noite igual às outras? Afinal será… uma espécie de Natal.

Boas Festas
posted by Henrique at 22:55

10/12/09

ESGRIMA - OUT2008

Carlos Carrera, Henrique Martins, General Chito Rodrigues e TCor. Álvaro Diogo


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posted by Henrique at 22:50

27/10/09

BEM RECEBER... É AMAR (também)

A arte de bem receber é outra forma de amor. Vou-me sentindo cada vez mais rico, em valores, não os que julgam… Não! Esses, os materiais são irrelevantes, quando outros valores nos fazem sentir amados, compreendidos e parte comum de quem, aos nos receber como sendo um dos seus, nada nos pede em troca.

O mundo deveria ser assim, deveria seguir estes exemplos e doutriná-los. À semelhança de uma família, que se senta à mesa e partilha o amor, que divide uma fatia de pão e que faz da partilha de princípios e costumes a sua forma inata de estar na vida, também todos aqueles, que sentem dificuldade em olhar o seu semelhante, como alguém que um dia lhes estenderá as mãos, numa dádiva sem precedentes, deviam seguir este exemplo, tão nobre... porque afinal existe.

Olhem ao vosso redor. O que vêem? O que sentem? Se ao olharem para o lado, para a frente ou… em todas as direcções e conseguirem respirar fundo, então sejam bem-vindos. É porque sentem o mesmo do que eu. Para Sr. António e Sra. D. Severa deixo aqui uma palavra, de elevado agradecimento. A humildade rara, a alegria e espontaneidade sempre constantes. Agora percebo a base, vejo a raiz, a fonte que trouxe à luz do dia uma mulher, também ela fora de comum... Cristina.

Não desistam… nunca, de ser assim. Que a vida seja longa, já que eterna não pode ser, para que eu vos possa sempre dizer o quanto gosto de vocês.

Bem Hajam.
posted by Henrique at 18:30

24/10/09

O EFECTIVAMENTE

O Efectivamente era um homem revoltado com a vida, com o seu clube do coração com a mulher, os filhos… enfim, com toda a gente. Até o cão de vez em quando arrecadava umas lambadas.

Desgraçada, a mulher, não conseguia conter as lágrimas da porrada que lhe caía em cima, era já um hábito antigo, efectivamente, não se sabia se chorava com gosto ou com dor. Efectivamente trabalhava como pasteleiro, num café local, daqueles cafés tipicamente portugueses, ensebadas as mesas dos mais variados tipos de gordura, animal. Não faltavam as pedras mármores, rachadas que se cobriam com umas toalhas de plástico aos quadrados brancos e vermelhos. Era o que se chamava lá naquela localidade, um pasteleiro avant garde, só trabalhava por encomenda, tudo o que fossem pedidos a partir de meia dúzia de pastéis de nata obrigava a um pagamento adiantado para a compra do material, efectivamente. Trabalhava com astúcia e habilidade, uma pirâmide de chocolate era uma obra de arte nas mãos daquele homem, as suas unhas permaneciam durante largos dias, decoradas com adornos achocolatados.

A Desgraçada era dona de casa, o seu trabalho consistia em ver as Tardes da Júlia, novelas em português abrasileirado e tinha como passatempo mudar constantemente a antena de posição. Não vale a pena falar dos filhos nem do cão. Estudavam todos juntos numa escola primária, menos o cão, efectivamente. Esse andava desalmadamente à procura de uma cadela enresinada, na falta desse encontro, entretinha-se a esfolar gatos e a oxidar jantes de automóveis.

Os filhos eram alunos dedicados, gostavam tanto da escola e de estudar que mantinham-se consecutivamente há 5 anos na 4.ª classe. Os pais diziam que um dia ainda haveriam de ser doutores, dada a dedicação aos estudos.

Efectivamente e Desgraçada continuam ainda, nos dias de hoje, a manter a mesma performance, unidos no amor, na amizade e no arrear de pancadaria. Não conseguem viver sem este último.

Esta foi apenas uma pequena história, efectivamente, de duas pessoas, semelhantes a tantas, que nos vão entrando pelas páginas dos jornais, às vezes com contornos de faca e alguidar.
posted by Henrique at 21:13

22/10/09

O VOO DO FÉNIX

Diziam os egípcios e os gregos, que o Fénix era uma ave, constituída de fogo e que vivia por vários séculos. No fim da sua existência, o grande pássaro queimava-se numa pira de ervas mágicas, e logo depois, renascia das próprias cinzas, sendo então considerado um ser eterno. Essa propriedade mística tornou-o símbolo da imortalidade da alma e também dos anos.

Acreditem que não tenho essas características, de me imolar e renascer dos restos… do que me sobra. Mas temos algumas semelhanças. Essas semelhanças são apenas, repito, apenas, a capacidade de endireitar a coluna vertebral e nascer, de novo, para o desafio que é a vida. A minha vida.

Todos temos direito à felicidade, ao podermos sentir, que um sorriso nos percorre a alma, o espírito e nos dá vontade de acreditar, que a felicidade está ao virar da esquina.

Apostei forte, acreditei e… falhei na prossecução dos objectivos. Porque tinha de ser assim, porque me estava destinado esse desfecho. As cinzas que são a base do renascer do Fénix, são a minha experiência de vida, a aprendizagem constante, que acaba por fazer de mim um ser mais absoluto.

Aos 42 anos de idade, sinto a mesma vontade de construir um castelo de Lego, de formar uma palavra com simples cubos de madeira. Após estes anos, a chave que abre a porta dos sonhos não é mais uma miragem, nem os sonhos… esses que me alimentaram o ego dia após dia. Afinal, a realidade é isso mesmo, palpável aos nossos olhos e visível, às nossas mãos.

O voo do Fénix! O renascer, junto de quem me estende as mãos e ao me olhar de frente, diz:


- Valeu a pena ter esperado. Estou aqui, no mesmo degrau. Aquele degrau onde o tempo nos colocou há tantos anos. Vamos continuar a subir?
- Vamos. Lado a lado.
posted by Henrique at 21:39

10/10/09

CROMUS CUNICULUS

Vulgarmente conhecido por “Cromo”. Todos nós já vimos esta peculiar criatura. Mas se alguém ainda não deu por ela, não será difícil encontrá-la por aí. Normalmente este espécime, carnívoro, ocupa os lugares cimeiros na cadeia dos predadores; a excepção é que nunca ataca animais do mesmo sexo. Habita normalmente em lugares afastados dos grandes centros populacionais; no entanto já foram vistos a circular por zonas mais movimentadas. A sua cabeça varia conforme a presa a atacar; normalmente disfarça-se com penteados brilhantes, a que associa cortes irregulares, para assim confundir o alvo pretendido. Reveste-se das mais variadas formas. Esta é uma das suas grandes armas. Já foi visto em fato de treino (normalmente aplica-lhe duas listas verticais brancas, estrategicamente colocadas), meia branca turca e chinelos. O pormenor das meias brancas é muito útil na aproximação da presa, uma vez que lhe permite deslocar-se de uma forma silenciosa. Costuma, em alguns casos colocar duas raquetes de ténis cruzadas para dar um ar desportivo. Quanto aos chinelos, são normalmente em borracha barata, com logótipos estranhos. Os chinelos são úteis no Verão ou quando inicia uma perseguição desenfreada, dado o arejamento constante nos membros anteriores. Mas existem variações desta raça. Uma das variantes consiste na apresentação em T-Shirt, camisa texturada com cores garridas ou até com flores e palmeiras. Uma camuflagem perfeita. Costuma adornar-se de fios grossos e anéis. Apostam nos dourados, emitindo assim um sinal de riqueza como chamariz. Um pormenor importante é que nas mãos existe sempre um dedo que tem uma unha consideravelmente grande, usada para a sua higiene pessoal, nomeadamente os ouvidos. Este animal preocupa-se muito com estes pormenores. As suas sociedades são dominadas por fêmeas, o que não é comum entre os mamíferos normais, e as fêmeas têm níveis de agressividade muito altos, o que de facto interfere na procriação. Não vivem em clãs. Costumam caçar isoladamente e raramente montam emboscadas. Gostam de se fazer notar. A sua linguagem é muito típica. Utilizam palavras cortadas, fáceis. Cativam as fêmeas com frases em forma de galanteio. São pouco inteligentes, o seu cérebro é tacanho, mas têm uma forma muito cativante de andar; fazem-no compassadamente, em movimentos laterais. Há espécimes que na sua idade adulta apostam num sorriso falhado, com alguns espaços negros. É uma táctica comum na arte de assobiar e atrair a presa ao seu ninho. A pelagem é normalmente clara, às vezes preta, é rala e esparsa. A pele superior está frequentemente marcada por tatuagens com inscrições geográficas ou frases sentimentais. Ao redor dos olhos utiliza um conjunto de dois espelhos a que se dá o nome de óculos, o focinho na maioria dos casos é coberto por um vasto aglomerado de pêlos. E basicamente é este o “Cromo”. Um animal sui generis da sociedade contemporânea e que se vai mantendo e preservando nos dias de hoje. A foto aqui presente mostra uma versão mais elaborada deste animal, num cenário de caça grossa.
posted by Henrique at 12:25

07/10/09

O CÃO, O GATO, O PASSÁRO, ENFIM... OS OUTROS

É sempre nesta altura que estas coisas acontecem. Muito boa gente anda durante o ano com eles ao colo, a levá-los a passear ou até a deixá-los sair da gaiola por uns minutos. Mas eis que chegam as férias... e aí tudo muda de figura. O que fazer? Não vou condicionar as minhas merecidas férias por causa de um animal! Tudo começa com esta frase, "Onde o vamos deixar?". Desta frase à berma da estrada é um passo. O pobre do animal, ao fim de tanto tempo de dedicação e entrega acaba sendo largado, num pinhal ou noutro sítio qualquer, longe de casa (não vá ele regressar). E tudo isto sem quaisquer remorsos ou peso na consciência.

Infelizmente o número de animais abandonados tem vindo a aumentar. Só no ano passado foram mais de 10.000 (dez mil), segundo informação da Liga Portuguesa dos Direitos do Animal. Os canis municipais que albergam os animais abandonados, há muito que ultrapassaram as suas capacidades. Resultado: Muitos animais acabam por morrer à fome ou por atropelamento.

A única forma que tenho de tocar na consciência, daqueles que já cometerem este acto cruel é desejar-lhes sorte. Sorte para que nunca os abandonem num corredor de hospital, que nunca acabem os seus dias num lar para idosos, depois de a família não os querer no conforto da sua casa, mas também, que nunca sintam fome, nem sede.

Mas não escrevo para falar de animais racionais, escrevo para apelar, para implorar a todos aqueles que antes de abandonarem um animal, pensem que estão a condenar à sua sorte os seus dias, privando-os assim do carinho e do amor que tanto deram àqueles que julgavam serem seus amigos. Pensem, sintam e se puderem, façam chegar a mensagem. Obrigado.
posted by Henrique at 01:12

01/10/09

A LUZ QUE VEM DE LONGE

Traça-se um objectivo, que julgamos ser possível atingir. Delineamos os contornos da surrealidade… como se, o que sonhamos durante dias a fio seja projectado aos nossos olhos. Os dias passam e, multiplicam-se, dissipam-se, nascem, renascem e o sonho mantém-se. Escrevem-se palavras, frases, textos e cartas, na ânsia de fazer chegar o que criámos cá dentro, esse sonho.

Lembro-me, nos meus dez anos de idade, escrever uma carta, onde eu dizia, que um dia queria ser um homem grande, como os que via a conduzir os autocarros, aqueles verdes, de dois andares. À noite, quando me deitava, encolhia-me por debaixo dos lençóis e cobertores, imaginava-me num buraco, algures num sítio inóspito, em que muita gente me procurava… e eu ali, escondido, protegido, de tudo e todos… dos maus.

Mas nunca me consegui desviar daquilo que mais me intrigava. Como é que eu seria como pessoa? Como é que os outros me veriam. Como é que seria a minha mulher e os meus filhos? Chegaria eu a velho? Passados estes anos todos, onde aprendi muita coisa e ensinei também, com base no que a vida me trouxe de bom e de mau, chego à conclusão que muito tenho para construir, ainda aos 42 anos. Alguns dos tijolos que fui cimentando, como se fossem capítulos do meu livro da memória continuam bem alicerçados, outros vão criando brechas e outros já foram removidos. Como pessoa sinto que sou diferente, por muito estranho que isso pareça, a quem ler. É a realidade.

Quantos de vós conseguirão escrever, para uma folha de papel o que sentem, o que pensam dos outros, de tudo o que nos rodeia e materializa? Eu consigo. Com muita dor, às vezes, é verdade. Uma frase pode ser o princípio de um passo dado em direcção ao desconhecido, quando o nosso coração teima em contrariar a racionalidade. Sempre pensei que o coração é que manda, é ele quem dita as leis, porque só trabalha de uma maneira, tem sempre a mesma cadência. Não falha… não pode. A outra parte, aquela que nos tenta causar constrangimentos… é o pensamento. Não é a consciência… é o pensamento.

Pensa-se que vamos pelo melhor caminho, que tomamos as melhores decisões e depois arrependemo-nos, porque não ouvimos o coração… sim, o coração. É nesta parte que durante anos lutei, procurei, pela minha outra metade, a que estava entregue à fábrica de sonhos, onde imaginamos uma ilha, a célebre ilha, em que levamos a mulher pintada por nós e esculpida no diamante mais puro. A tinta com que a pintámos desaparece ao fim dos anos, mas o valor da pedra preciosa permanece infinitamente, aqui e além.


É a luz que veio de longe, de tão longe, comigo, desde aquele dia em que estalámos os dedos e pedimos para que nos acompanhasse. E não consigo tirar os meus olhos dela, porque foi e será sempre, esse raio luminescente que me mostrará o caminho que devo seguir, sempre na direcção em que o meu coração mandar.
Tenho um nome, baptizaram-me com orgulho, carinho e amor, muito mesmo. Esse amor que absorvi e guardo esteve sempre destinado aos meus descendentes. Não aconteceu. Sabem o quanto eu desejaria agarrar numa criança, num filho meu e deitar-me junto a ele, de livro aberto e ler a história escolhida para esse dia? Ver adormecer uma criança nos braços, protegida pelo amor de um pai? Correr pelo parque, atirar uma pedra para o lago e vê-la saltitar. Sabem mesmo? Não! Não sabem, porque não conseguem lá chegar. Porque isso não se consegue medir, nem pesar.

Quero que um filho meu, um dia, ao ler estes textos, que se seguem e que advirão, diga bem alto: - Um dia quero ser como o meu pai. Ficarei realizado, pela missão cumprida. Esse tijolo há-de aparecer. Onde? Não sei. Mas garanto-vos… será… com a pessoa certa. É a luz que veio de longe e me acompanha, aqui e ali, onde eu estiver.
posted by Henrique at 00:59

29/09/09

PAPEL DE EMBRULHO

Andava já há uns meses para escrever sobre isto, mas se não o tinha feito ainda foi por falta de tempo. Eis o momento. Tenho andado a dissecar algumas publicações semanais, que por hábito aparecem nas bancas (mesmo à frente) para nos tentar contagiar ou pegar alguma coisinha má. Ao pretender comprar um simples maço de tabaco, distraí-me e dei de Caras com a Lux, mesmo ali… debaixo das pestanas. Veja-se o título dessa semana: “Deco vai para Inglaterra com a nova namorada e deixa o filho doente”. Revista VIP: “Estamos muito felizes” referindo-se ao casamento de duas pessoas e, finalmente, a Revista Caras que atira cá para fora com um “Casamento Real”. 

Agora deixem-me agarrar nisto tudo e vou tentar perceber a que conclusão chego. A nenhuma. Pior,. Fiquei baralhado porque já não sei se estou numa República ou numa Monarquia. Podem dizer-me quais foram os reis portugueses que se casaram recentemente? E acham que duas pessoas no dia do seu enlace matrimonial vão dizer: Não estamos felizes! E nessa edição da Caras ainda aparece esta maravilhosa notícia “Julie Sergeant e Cassiano Carneiro casam-se em Lisboa três anos depois do nascimento da filha”, mas eles não se podiam casar quando quisessem? Tinham que se casar logo a correr, depois de nascer a criança? Bem… eu sei que este género de publicações existe em toda a parte do mundo, mas nós, que somos tão poucos, logo tínhamos que levar com estes pasquins? Não vos peço que leiam Kafka, Nietzsche ou a Science et Vie. Mas por favor tentem esforçar-se e evitem dar alimento à futilidade, porque muita dessa gente passa a vida a criticar os órgãos de comunicação social, mas dão tudo para aparecer nos tablóides, chegam a pagar entrevistas e a abrir os portões das suas quintas. 

Depois, as editoras dessas publicações adoram espicaçar a mentalidade do seus leitores e das massas em geral. A questão que coloco é a seguinte: Eles pensam que somos todos saloios? Desculpem-me as pessoas da zona Oeste, tenho a máxima consideração por eles. A única coisa que sei, mas sei mesmo… é que o verdadeiro Jet7 português é aquele que não quer mostrar-se e prefere viver incognitamente. Cultivem-se, mesmo que seja aos poucos, nem que seja num livro de banda desenhada… ao menos esses ainda mostram discursos directos, emoções e sentimentos.
posted by Henrique at 16:15

27/09/09

VERDADE OU CONSEQUÊNCIA

O que nos move? Enquanto pessoas, seres humanos, que ainda somos. O que faz com que sejamos tão diferentes? Quando podemos ser tão iguais. Vendemo-nos a qualquer preço? Não! Não concordo, admito que não. Há umas semanas que o jantar me tem vindo a cair mal, naqueles dias em que, quando me colocam à frente dos olhos, um programa ou concurso em que há uma personagem caricata, que se encontra, supostamente, ligada por fios e cabos a um polígrafo.

Prefiro chamar àquilo um concurso, porque me parece que se ganha dinheiro, por cada resposta dada, neste caso, por cada resposta confirmada entre o que pensamos e sentimos, na realidade. Mas até aqui, tudo bem, tudo me parece normal, mas o teor das perguntas é que são do mais ridículo que possamos imaginar. A começar pela apresentadora, Teresa Guilherme, que sempre teve tendência para perguntas cujo melindre possam fazer abanar as massas, desfraldando assim a vida alheia. Não sei quem faz o quê, nem tão pouco se o script a seguir é estereotipado com base num inquérito, previamente feito pelos condenados à cadeira eléctrica. Sei é que, quem nela se senta, sabe os riscos que corre, mas não se importa, se isso colocar em risco a sua vida familiar ou profissional.

O que conta é mesmo o “pingar” da moeda, à medida que se pula e avança de casa em casa, até à meta final.
Os tempos são outros, eu sei, faço parte deles. Há uma maior abertura, mas o que me preocupa é não conseguirmos diferenciar, já, o razoável do supostamente estúpido. A exposição pública é enorme, não importa! Venha de lá o dinheirinho, porque o resto se há-de resolver, a troco de dinheiro. Assisti a dois concursos desses e chegou.

Mas depois, para mal dos meus pecados, no dia seguinte à sentença de morte ainda levamos com o déjà vu do concurso anterior. Um painel de ilustres comentadores analisam e comentam ao mais ínfimo pormenor as respostas dadas pelos sentenciados (acho que é a única pena de morte que poderá ser lucrativa para o condenado, em caso de sucesso pessoal). Falam como se fossem ou fizessem parte do seio familiar, chegando até a colocarem-se no lugar do morto. Simplesmente hilariante.

Não sei se a máquina é credível. Talvez seja… ou não. Mas se assim for, porque não a empregamos em casos “verdadeiramente” mais importantes, em que um suposto réu se continua a bater pela sua inocência ou quando existem indícios, mas não se encontram provas que determinem a culpabilidade de um indivíduo e que se vê em liberdade em três tempos.


Pois, parece que a nossa legislação não permite, neste caso, o recurso do polígrafo nos tribunais. Venham então daí os concursos, porque o que a malta quer mesmo saber é se o condenado enganar o cônjuge, vai ter coragem de lhe dizer, ou se é verdade que ainda guarda rancor ao pai, mãe e filho por estes lhe terem partido um carro novinho em folha.


Já estou à espera do próximo concurso. Qual será, desta vez? O kamasutra praticado por concorrentes? Em que cada casal ganha umas coroas pelas posições mais rapidamente conseguidas? Ok. Cá estaremos para aplaudir, de olho arregalado e com meio Portugal a assistir... em directo.
posted by Henrique at 17:24

26/09/09

TEMPO DE VIVER

É a hora que passa
É o tempo que corre

A alma que abraça

O espírito que nunca morre


São cheiros de ervas e flores

São palavras cantadas, aos seus amores

São livres, soltas... desamparadas

São lágrimas fartas, roubadas


É a terra que te colhe e come

Num acto sem retorno

Apaga-se a luz... dorme

Num descanso em desafogo


Um dia que nasce é um dia que volta

É a árvore que cresce... e páre

Um suspiro que se solta

Na vontade ínfima, de amar


É o tempo que passa

É a hora que corre

O som que amordaça

A alma, que se descobre


Palavras brandas... arrancadas

Gritos mudos, atoardas ao vento

São preces, juras... são mágoas

Que se revestem... em sentimento
posted by Henrique at 23:04

20/09/09

CÁSSIA ELLER! ESTE É TEU.



A cada palavra tua
Uma nota, um acorde se solta
Em sons uníssonos, únicos
A vida foi-te curta, traiçoeira
Malandragem?
Talvez.
Afinal eras apenas uma garotinha
A tua irreverência
A tua raiva… saudável
O não te quereres suportar
Volta… de novo!
De outra forma… a que nos ensinaste, a ouvir
Eu sei, foste poeta e não aprendeste a amar
Ouço-te, como sempre
Com alma, transpirando saudade
Talvez tarde, te tenha chegado o reconhecimento
E a atitude nem sempre impera
Quando se pretende diferente
Serás sempre tu, à tua maneira
Inteligente, mordaz no pensamento
Quem sabe se ainda não és uma garotinha
posted by Henrique at 21:09

UM ESTADO... DE MAR

Cheguei era já noite
A imensidão do mar susteve-me a respiração
Caminhei lentamente, em silêncio

Fixando as pisadas dos meus passos

Na areia molhada

A primeira onda tocou-me, de leve

Abraçou-me os pés

Absorvendo-me os sentidos

O céu estrelado parecia um hino

À vitória... à glória

Daquele momento... a mim

Que tudo fiz por o merecer... sozinho

Como era extensa a imaginação

Como era lindo o sonho

Quero saber, porque me fazes sentir assim

Que dom tens, que me escondes

Porque me molhas os pés... se...

Me podes encharcar a alma

Deixa-me tocar-te

Humedecer a palma das minhas mãos

E sentir-me-ei realizado

Lavado no espírito

O meu cabelo solta-se ao vento

Ao teu vento, aquele que te agita e revolta

Partilhamos o mesmo... não o vento

Mas a liberdade, a solidão e... a imensidão

De sermos grandes, à nossa maneira

Continuas de volta dos meus pés

Vais e voltas, numa cadência salgada
Recuo... retrocedo à tua próxima investida

Esboço um sorriso

Foste feito para mim, talhado... na alma

E a cada passo na areia solta
A cada chamar das ondas

Submeto um olhar...

Não de despedida

Mas, de um regresso, anunciado
posted by Henrique at 21:08

18/09/09

PARA TI... QUERIDA ESPADA

Mandaste no mundo
No teu aço, verteu-se sangue
No teu fio caíram lágrimas
Pelo teu punho se ergueram braços... vitoriosos
Por batalhas, d'antes travadas
Resististe... ao mundo... ao esforço
Daqueles que te desembainhavam
De forma aguerrida
No confronto... ganhaste
No suor... choraste
Na alma... sobreviveste
Na honra e na glória vingaste
O teu espaço... foi preservado
A tua figura... desenhada
E, projectada... no tempo
É orgulho... o que sinto
Olhando para ti... na minha mão
Sendo tu um pedaço da memória
És glória
És bandeira ao vento, lançada
És única... és Espada
posted by Henrique at 02:25

SE ME DEIXARES...

Seria apenas mais uma noite
Não fosse o luar ser tão diferente

Das outras… noites

O foco de luz

Que atravessava a noite

Irradiava esperança, amor…

Quando os teus olhos, inquietos…

Se lançaram no horizonte

Vislumbraram a beleza das estrelas

De tão cintilantes, que estavam
Seria apenas… mais uma noite

Não fosse os teus olhos
Estarem tão diferentes

O foco de luz… o brilho

Cruzavam o céu

Em direcção ao infinito

Se eu pudesse… se me deixasses…

Eu iria para onde tu fosses.

Talvez um dia eu encontre
Uma maneira de te ajudar…

A procurar o teu caminho

De te guiar… lá por cima

Será apenas mais uma noite
Como tantas… as que se seguirão

Neste espaço

Neste momento

Onde eu e tu nos juntamos

Em direcção ao destino
posted by Henrique at 01:25

17/09/09

A PALAVRA

A palavra é muitas vezes esperança,
A alternativa
Que nos dá segurança e…
Substitui um beijo…
Na despedida
É a palavra que me mostra ao mundo
Que revela o meu espírito,
A minha substância
Nos momentos em que me sinto mais próximo
De mim, de ti…
De todos, à distância
A palavra é o conforto, que nos chega de perto…
Ou de longe
Que nos inspira, em momentos de solidão
Ou não
Que nos adorna o pensamento e aconchega a alma,
A nossa, a dos outros, também
A palavra sente o coração
Sustem e derrama lágrimas

A palavra escreve-se, pronuncia-se... sente-se
Leva amor, traz amizade,
Às vezes dor
Outras… saudade
A palavra grava-se, no livro da memória
Nao há quem a consiga esquecer
A palavra é e será sempre... história.

posted by Henrique at 20:29

11/09/09

QUEM ÉS?

Não penses que existo na tua memória
Porque se me puderes ter nos teus braços
Jamais serei uma imagem
Se os teus olhos conseguirem encontrar os meus
É porque fomos talhados, um para o outro
Não julgues que sou uma sombra
Porque se olhares a luz
Eu virei de cima, na tua direcção
Em busca do sentido, o sentido de tudo
O porquê de cada acto
De cada passo predestinado
A vida passa-me ao lado
Num piscar do universo
Não feches a janela
Por onde um dia vou entrar
Mostra-me o teu sorriso, através da alma
Faz-me sentir único, na tua imensidão
Encanta-me com as tuas palavras
Ditas na altura certa
O desejo que ao primeiro toque
O teu perfume absorve
O pouco que resta da razão
Sobra do encontro,com os teus olhos
Onde o infinito é personificado
Em ti
posted by Henrique at 00:24

19/08/09

CONTO I - Parte I

Esta é mais uma história que a ser realidade, confesso que não sei onde aconteceu. Fica aqui a a primeira parte. Tal como vocês, também eu espero pela segunda, é só uma questão de tempo, para escrever...
PARTE I
Numa aldeia, algures escondida entre duas montanhas, havia uma família, de apelido Arregaça… bem, até havia mais, mas esta a que me refiro, era mesmo a única de que me apetece falar. Era composta por 14 pessoas, dois cães, 3 canários que voavam livremente dentro de uma gaiola e um gato, em que uma das orelhas já fazia parte do passado.
O chefe da família, o Sr. Justino, era um homem alto, dentro dos seus 1,60m. Achava-se alto porque não admitia que ninguém falasse mais alto do que ele. Naquela tarde de sol, o Justino descansava à sombra de uma placa de zinco, entretendo-se com um machado a aparar as unhas. A sua mulher, Magnífica, enquanto estendia a roupa daquela malta toda, não aguentava dois minutos, sem atirar um taco de madeira à cabeça dos pequenos, que teimavam em quebrar o silêncio naquela tarde de Sábado.Do outro lado do arame farpado da quinta, onde uma vez um dos filhos perdeu um olho [pelo que se consta na aldeia, foi por amor], mora outra família, os Facadas.
Bem… não sei se já repararam, mas morar num aldeia onde existem duas famílias com estes apelidos, não deve ser nada fácil, das duas uma, ou arranjamos trabalho na marinha mercante, ou então fazemos um testamento a partir dos 18 anos. Mas foi precisamente nesse dia, que as coisas se agravaram, os Arregaça decidiram por unanimidade discutir um pedaço de terreno baldio, com os Facadas. Uns queriam o terreno para construir um barracão, onde iriam guardar o vasto material “recolhido” sem autorização, pelos sítios por onde passavam, outros há muito que lhe deitavam o olho para fazer uma horta de cultivo de couve portuguesa e feijão olho-de-boi.O Sr. Justino, apesar de ser um homem responsável, era pouco inteligente.
posted by Henrique at 18:40

01/08/09

A ARTE DE SER PORTUGUÊS

Num país pequeno e com uma alma tão grande, custa-me, de certa forma, o exagero patriótico que se vive em volta da selecção nacional de futebol. Não que a nossa selecção o não mereça, mas por saber que este acto não é mais do que um momento.

Durará enquanto a equipa de todos nós se mantiver em terras suíças, enquanto as vitórias nos forem embalando em cânticos e deslocações ao Marquês de Pombal. Aposta-se no patriotismo de uma forma comercial, onde em cada janela deverá ser colocada uma bandeira de Portugal.

E para quem ainda não o fez pode sempre deslocar-se a um supermercado e adquiri-la, sim, porque a bandeira portuguesa também se vende em supermercados ou na rua, a preços asiáticos. Há sempre uma altura na nossa vida em que nos orgulhamos de ser portugueses, mas esse orgulho deve ser administrado desde as raízes. Deverá ser uma questão de base. Para onde foram as bandeiras de Portugal que existiam em cada sala de aulas? Será que o hino nacional ainda é administrado na docência?

Reconheço que os tempos são outros, mas tenho a certeza que cada um de nós já sentiu uma vez na vida, pelo menos uma vez, o orgulho de ser português. Parece-me que o saudosismo nacional ou patriótico ataca mais quem emigra, quem chega até ao nosso país através de uma televisão ou internet.

Há que mudar esta tendência, não precisamos de ser americanos ou ingleses para valorizarmos o país que nos viu nascer, basta que o sintamos cá dentro. Não sou monárquico nem nacionalista. Sou português. Temos capacidade para ir longe, mesmo se quem nos governa, independentemente da cor partidária, considere que a ajuda externa seja essencial. Se antigamente os recursos existiam, hoje também têm que existir. Não me parece que a população tenha crescido tanto nos últimos 30 ou 40 anos.

De repente demos um salto tecnológico, tudo nos foi colocado na mão de uma forma facilitada, à semelhança dos países muito mais à frente do que nós. O problema? É que pintámos primeiro o carro sem lhe dar a base. O resto depois não agarrou, não soubemos fazer o trabalho de casa. Está na hora de continuarmos a vontade e a dedicação de um povo que desde o início lutou e conseguiu erguer-se como Nação.

Nada se constrói com facilidade, mas tudo se concretiza quando temos vontade, optimismo e sobretudo a consciência de sermos portugueses. Portugal não é a selecção de futebol, Portugal é muito mais do que isso.
posted by Henrique at 18:30

29/07/09

PARAÍSO

Não tenho o direito de decidir, mas tenho o poder de acreditar
Como a água cristalina de um rio, que corre por entre as montanhas
Como um pôr-do-sol, que se esconde ao fundo de um mar
Tal qual uma criança que vislumbra a luz… ao sair do ventre materno

Não tenho o direito de olhar, mas tenho o poder de sorrir
Quando uma mão se estende ao horizonte, num gesto de submissão
Como dois corações que se tocam num rasgo… num sentir
Tal qual as palavras que escrevo, numa ansiedade ou sofreguidão

Não tenho o direito de Te pedir, mas tenho o poder de Te implorar
Como o momento em que colocamos o nosso espírito e perdemos a nossa mente
Como uma lágrima à solta, que teima em escapar
Tal qual o ar que respiramos, neste sítio a que chamamos Terra
O amor vai nos guiar… É como se nunca tivéssemos partido

Não tenho o direito de decidir, mas tenho o poder de acreditar
Que um rio só corre num sentido, tal como o sentimento e a verdade
O Paraíso não é tão difícil de alcançar,
É preciso pedir ao tempo, que não nos leve a saudade

posted by Henrique at 15:13

07/07/09

RAIO DE LUZ...AZUL

Surgiste do nada, do vazio
irradiando uma intensidade invulgar,
de algo que até então desconhecia

Susti a respiração por breves momentos

Percebeu, quando me olhou,

aquilo que era o inevitável

Estendi-lhe o braço e abri a mão,

na expectativa de sentir,

o seu toque

Não a quis ouvir,

Não quis que me dissesse nada

Apenas que me contemplasse,
Que me olhasse na profundidade dos meus olhos

Pedi-lhe para se sentar, ao meu lado

Sentir aquela magia de perto

O magnetismo e o encanto

Mesmo que nada sintas por mim

Deixa-me escrever-te um poema

Mesmo que as palavras sejam poucas

O conteúdo será vasto, amplo

À tua medida

Porque isso me fará sentir bem

Mesmo sem ter visto o pôr-do-sol,
numa praia deserta

Sem nunca ter dançado o Tango,

mesmo não o sabendo dançar
Sem ter gritado ao vento

Não te vás embora

Sem antes eu ter vivido todas as emoções,

Olhou-me serena e tranquila

Os nossos lábios tocaram-se

Fechei os olhos e disse: - Obrigado

Apertou-me a mão

Senti que a sua viagem continuava

Não deixarei que me digas adeus

Elevou-se a poucos centímetros do chão

E afastou-se, lentamente

Virou a cabeça na minha direcção

Esboçou um sorriso, tímido

E partiu

Deixando um raio de luz… Azul
posted by Henrique at 18:24

TÃO SIMPLESMENTE... TU

Os traços da minha cara
revelam como sou
A história de uma vida,
as histórias de onde vim
E do que fiz, para aqui chegar
mas essas histórias não significam nada
Se não não tens a quem as contar
Percorri os caminhos mais difíceis,

Subi à mais alta das montanhas

Para chegar até ti

E foi com um sorriso nos lábios

Com um braço estendido, que me viste

Lá bem no alto, onde tu e eu, enfim... sós

Avistámos o horizonte numa amálgama de cor

Só tu sabes o meu nome, conheces o meu corpo

A profundidade da alma

Os traços da minha cara
mostram a alegria neste momento em que...
Percorrendo cada sentido no teu corpo

Se sente e vislumbra a magia

Num olhar tão intenso, quanto o teu... o nosso

No silêncio, espero que o luar traga o teu segredo

Enquanto a escuridão flui para o amanhecer

Abro a mão e deixo voar o desejo... de um beijo

Quero ouvir o canto dos pássaros,
sentir o aroma das flores
Da terra molhada

Quero escrever um poema
que fale de ti, de nós
Sei como o começar, sei as palavras que o farão falar de ti

Queria ser forte o bastante...

Queria sair da lucidez, cair em demência

E perder-me nos teus beijos e abraços

Cantar a esperança, viver com os olhos
Brilhando de felicidade

Mais uma manhã de sol na tua vida onde eu iria pintar
mais um momento... de luz
Mais um momento de amor
e ser o sonho dos teus passos,
A luz que os ilumina
posted by Henrique at 15:35

26/06/09

ERA UMA VEZ O MICHAEL JACKSON

Michael Jackson morreu a 25 de Junho de 2009, ao que tudo indica, motivado por um ataque cardíaco. A polícia de Los Angeles (LAPD) procedeu de imediato às investigações, para apurar em que condições é que o Rei da Pop music tinha falecido. Até aqui, tudo me parece normal, o homem era americano, uma referência na música internacional, por isso, uma personagem mediática nos quatro cantos do mundo. O que me parece pouco normal é, em Portugal, haver tanta gente consternada, não que o artista não mereça, mas parece-me demasiado tanto choro e angústia. Que a Madonna, a Cher, o Quincy Jones, entre outros colossos da música Pop e som Motown Records se alaguem em lágrimas, para não falar dos amigos mais próximos e família, até aceito, agora o vulgo, o desconhecido, o cidadão que nunca se achou perdido nem achado, se manifeste publicamente num pranto é que já me parece uma tendência para a calamidade.

Afinal, o Michael Jackson era apenas mais um artista musical, que se destacou pelo melhor e, pelo pior. Um tipo que nasce negro e insiste em se tornar branco... ok... normal... mas um tipo que diz que a coisa mais maravilhosa do mundo é partilhar a cama com alguém, e esse alguém ser uma criança, a mesma criança que mais tarde o acusou de ter sido abusada sexualmente, é que me deixa baralhado. Os tribunais absolveram-no, não sei como, porque desconheço o processo... Depois, o negro que se tornou branco, numa janela de um hotel, puxa de um bebé, o seu filho, e mostra-o aos seus fãs, segurando-o nos braços, tipo marionete... lindo de se ver... os fãs vibravam com mais uma atitude do seu ídolo.

Os canais de televisão americanos noticiaram que a polícia de Los Angeles tinha apreendido o carro do médico pessoal de Michael Jackson, por suspeitarem que esse médico possa ter administrado uma dose exagerada de morfina, precipitando assim, o ataque cardíaco ao malogrado artista... enfim... Eu esforço-me, mas não chego lá. Então o Michael Jackson, que tinha calendarizado 50 espectáculos em Londres, ia apresentar-se em palco movido a morfina?

Os fãs pagavam um bilhete a peso de ouro para ver um branco que foi negro a fazer uns moonwalkers alimentado a morfina? Ok... parece que ele deixou uma dívida de mais de 500 milhões de dólares... Ok... como é o Michael Jackson até se acha o máximo, afinal a excentricidade é que coloca os artistas no topo da popularidade... coitadinha da Amy Winehouse, que até canta bem, mas como costuma aparecer em palco com uma taça de vinho e umas injecções nas veias já não merece uma palavrinha de apoio. Nem uma lágrima?

Bom, não há dúvida, o Michael Jackson morreu e é chorado em todo o mundo, Portugal também não escapou, como pude ver na TVI, um jovem manifestando a sua tristeza, envergando uma T-Shirt dos Iron Maiden, a versatilidade musical é um fenómeno que arrasta massas. Na rádio, o fundador do Clube de Fãs em Portugal estava consternadíssimo. Eu só peço a Deus que mantenha vivo o Tony Carreira por muitos anos, senão é o dilúvio total. Michael Jackson vendeu milhões, o álbum Thriller vendeu mais de 100 milhões de discos, na altura toda a gente comprava, ninguém sacava da Internet, mas reconheço as suas capacidades artísticas e tudo o que fez pela música. Não esqueço o Live Aid. Coitada da Farrah Fawcett, que faleceu no mesmo dia. Ninguém deu por ela. Eu também via os Anjos de Charlie.

Os homens erram, caem e levantam-se, Michael Jackson apenas não teve tempo suficiente para se erguer, de novo. Não teve a inteligência suficiente para contornar todos os que o usaram, enganaram e se aproveitaram dele. Por tudo o que Michael Jackson fez no meio artístico, pelo seu talento, pelas suas músicas, que cresceram comigo na adolescência, pelas causas que defendeu e ajudou... também lamento a sua morte. DESCANSA EM PAZ.
posted by Henrique at 23:00

08/06/09

ONDE PÁRA A SENSIBILIDADE?

Tantas, mas já foram tantas as vezes, que me deparei com este obstáculo, que teima em perseguir-me. A dificuldade em perceber o que move os outros, quando deixam resvalar a capa que os esconde. Confesso que por vezes sinto-me perdido na minha ignorância, tento relegá-la para segundo plano, não lhe dando a importância que pretende, mas é com uma misantropia extrema que não a consigo dissociar. Gosto de perceber… pelo menos tentar. Muitas vezes sinto-me ignorado e incompreendido, mesmo sabendo eu o potencial das minhas capacidades, o limite da minha inteligência, vejo-me obrigado a ficar calado, para não me sentir humilhado, melhor… para que não deixe que o consigam. Faço parte daquelas pessoas (espero que seja um grupo pequeno… espero mesmo) que os outros acham, que somos limitados intelectualmente e, ou que não temos capacidade para os acompanhar na sua inteligência e ambição (é verdade… esta malta existe). Conheço algumas pessoas (até já tenho medo que isto seja alguma epidemia), que quando se encontram, só falam da vida dos outros, chupando-os até ao osso, depois de lhes terem devorado a carne até ao último tendão. Convidam essas pessoas para jantar em sua casa, para mais tarde terem matéria crime para debater, em circuito fechado. Falam de negócios, estratégias empresariais, parcerias (é hilariante observar). Às vezes somos quatro sentados na mesa do restaurante, sim… somos quatro, mas só falam três, o outro sou eu (o limitado intelectualmente) que normalmente me atavio em casa de literatura vasta, previamente escolhida. A parte mais engraçada é que quando tentamos inserir-nos nos temas ou na conversa, somos ignorados (a tal falta de intelecto), mas se tentarmos apanhar um dos três, que se encontram sentados, disponível, para falarmos de outra coisa qualquer, somos alvos de uma atenção quase talhada à altura da Mossad ou do MI6. Obviamente para sermos logo bombardeados com sobranceria ou desprezo altivo (dá-me vontade de rir nestas alturas). Como os conheço bem (julgo eu) e conheço as suas raízes e proveniências fico pasmado com a falta de visão (como a sensibilidade não existe) para se verem ao espelho. Tenho o maior respeito por todos aqueles que vierem das suas terras, que através de sacrifícios, mandaram calar a pobreza, a futilidade e que hoje são pessoas bem sucedidas, porque sabem de onde vieram e como chegaram. Os outros, aqueles que vieram dos mesmos locais e que subiram na vida (este subir é subjectivo) à custa de estarem bem “encostados” ou de terem apoios quando abrem a boca, bem, para esses, vai o meu sorriso, oculto, acompanhado de uma fotografia cerebral. A parte mais hilariante de tudo isto, é que os que me julgam limitado (têm as suas razões) desconhecem o que escrevo, este meu lado oculto, que guardo para mim e partilho convosco, que não vos conheço. Uma das vantagens de gostarmos de escrever, bem ou mal, é a de podermos passar para uma folha de papel aquilo que os outros (os que me limitam) vão levar uma vida inteira para aprender a fazer. Se calhar, se lessem o que escrevo, do que sou capaz, poder-se-iam sentir melindrados, ou não... às vezes ainda se agigantam mais (deixem-nos estar assim, confiantes de si próprios). Por isso meus amigos, gosto muito de estar ao meu lado e falar comigo próprio, analisando sempre até onde vai a sensibilidade dos outros, porque a minha sei onde pára, mas isso só está ao alcance de poucos, dos que se deixam limitar para não ferir susceptibilidades e não cortar as pernas aos que ainda vão levar tanta pancada pela vida que vão ter pela frente. A foto que escolhi não foi por acaso, é que às vezes podíamos aprender com eles.
posted by Henrique at 15:32

19/05/09

EXPERIÊNCIA GÉLIDA

Não foi apenas mais uma viagem, foi uma deslocação à neve, por cinco dias. À partida estava um pouco na expectativa. Uma semana rodeado sempre da mesma cor parecia-me estranho. Comecei por tentar encontrar as diferenças entre uma cordilheira nevada e uma estância balnear, algures nas Caraíbas. Cheguei à conclusão que podemos gostar de ambas as coisas, por vários motivos. Um deles é aquela sensação de nos sentirmos a milhas terrestres para um lado e náuticas para o outro. Outro dos motivos, e muito importante este, é que também nos podemos bronzear nos Pirinéus. E de uma forma intensa. Em vez de levarmos para a praia a cadeira, o garrafão, o chapéu-de-sol e o balde, levamos dois batons (não são esses que estão a pensar) um par de skis e mais outra coisa qualquer que tencionamos por lá deixar, perdida num sítio qualquer.

À chegada temos sempre aquele receio, de que somos a única pessoa que não se consegue meter de pé em cima de duas réguas estranhas, já para não falar nas belas botas que me faziam lembrar Neil Armstrong no seu passeio alucinante por terras nunca dantes pisadas. Mas essa ideia é logo desvanecida quando, afinal, somos apenas mais um dos que anda ali a fazer figura de inepto. Mas é aí que as coisas mudam de cenário. Quando passamos as primeiras 48 horas de sufrágio já ninguém nos agarra. É tudo nosso... o espaço à nossa frente... a montanha, os vales, enfim, o único obstáculo que não conseguimos passar com os skies por cima é o forfait. Se pensam que vou dizer às pessoas que sou um "nabo" a esquiar desenganem-se. Para os que nunca esquiaram sou um ás, os outros, aqueles que dominam a arte das tábuas em paralelas sou apenas um tipo esquecido dos seus tempos aúreos.

Mas esta experiência começou com uma dúvida sazonal e garanto-vos, que a única diferença é que onde se faz praia, dificilmente se poderá pensar em neve, e onde se pisa o gelo, raramente se fazem castelos de areia. Mas ambas são demasiadamente fabulosas.
posted by Henrique at 19:01

04/05/09

MARRAKECH - O Tapete

Cheguei a Casablanca às 17h11 (hora local), após um voo com uma turbulência a fazer lembrar o célebre Titanic, não por ter colidido com um iceberg, mas pela sensação de me ver ir a pique várias vezes. Pensei... - Ok! Henrique... vais realizar o teu sonho. Já que tenho de morrer um dia, que seja a voar.

Ainda no aeroporto em Lisboa, apercebi-me de alguns passageiros soltarem umas risadas, quando viram o avião que nos levaria ao destino. Mal sabiam o que lhes esperava. Ao fim de meia hora de voo, já metade deles se encontrava com uma mão no saco de plástico e outra a agarrar fortemente o banco da frente. Nunca cheguei a entender porque é que tinhamos de fazer 3h30 num Beechcraft 1900D até Casablanca e depois... bem, depois fazer 40 minutos num Boeing 737-800 até Marrakech.


Bom... já tenho umas boas horas de voo, mas nunca tinha voado num avião a hélice num voo intercontinental. Sim, intercontinental, porque Casablanca fica em África.

O aeroporto de Casablanca mostra-se interessante à chegada, mas rapidamente se esgotam as opções. Poucas lojas, o atendimento aos passageiros em trânsito carece de melhorias significativas, sobretudo quando se tem de esperar seis horas por uma ligação aérea de 40 minutos até Marrakech.

Mas para um aeroporto internacional, ter um café onde se pode comer um prato de arroz com uma perna de frango, até que nem está mal, o pior é que café não existe.

Marrakech é diferente, também não tem café no aeroporto, mas podemos sempre comprar num quiosque, um íman para pregar no frigorífico. Comprei um com o cartaz do filme Casablanca. Tinha tudo a ver.

No primeiro dia na cidade aventurei-me pelas ruas estreitas da Medina, tipo cão vadio que anda... anda e nunca sabe onde vai ter. Bem... tive sorte, um marroquino abordou-me numa rua com dois metros de largura, onde circulam carros e motos a velocidades esmagadoras. Fiquei sensibilizado por o homem ter sido tão prestável... viu que eu andava por ali às voltas ou redundâncias cíclicas, e ofereceu-se para ser o meu guia e levar-me aos tanques das tinturarias, para eu tirar uma foto. Uauuu!!!! Pensei para mim.

Para eu fotografar as tinturarias, pelo menos aquela, entrei por um armazém de tapetes, onde fui dar a uma varanda com vista parcial para umas casas em barro. Resultado: Tirei três fotos e espetaram-me com um tapete de 400 euros. Guia, pensava eu... pois... Ainda por cima o suposto guia recebeu a comissão de me ter lá levado, à minha frente!

Fui para o hotel com o tapete num lado e sem 400 euros noutro. Lindo!! Ainda pensei vender o tapete por lá, mas era impossível, face à concorrência local.

posted by Henrique at 21:50

19/04/09

O SER HUMANO

O ser humano preocupa-me. Diariamente vou-me debatendo com as mais diversas vicissitudes desta máquina poderosa. Nunca consegui encontrar um modelo igual, exacto. Talvez próximo. A massa de que somos construídos é idêntica, mas nem isso nos conforta. A beleza exterior muitas vezes incompatibiliza-se com o seu oposto, o interior. E é esse que conta, de uma maneira ou de outra. Costumo dizer que a beleza exterior desvanece-se com a erosão do tempo, quando nos olhamos ao espelho ficam apenas as rédeas da memória, aquelas que seguramos para ainda considerarmos a nossa auto-estima. E para muito boa gente é essa imagem de marca que conta, que prevalece… mas se olharmos esta máquina avassaladora de uma forma mais profunda, deixando de lado a camada que nos cobre, veremos que é muito mais importante toda a engrenagem que nos projecta aos outros, a sensibilidade é uma das peças, a tolerância e compreensão são também, um mecanismo fulcral na motricidade humana entre outras similares, tão importantes para o funcionamento da “coisa” que somos.

O problema reside, não na linha de montagem, nem na fabricação em série, mas sim na distribuição. A juntar a isso temos as estradas da vida, que vamos percorrendo ao longo dos anos, muitas com curvas desniveladas, que nos fazem descambar para outras estradas secundárias, e quando chegamos a um cruzamento ficamos baralhados com tanto trânsito, que não sabemos para onde virar. Mas é aí que devemos deitar as mãos ao volante, segurá-lo firmemente e escolher o melhor caminho, porque é esse que nos vai levar ao destino, mesmo sendo desconhecido. O ser humano continua a preocupar-me. E eu faço parte dele.
posted by Henrique at 19:02

MISTÉRIO

A noite cai coberta pelo luar, que ilumina a tua janela
Uma estrela esboça um sorriso na tua direcção
Levantas os braços aos céus
O vento que enfurece os teus cabelos
Percorre-te o véu branco
Ficas tão bela
Nesse teu semblante de princesa
A tua sombra
A tua magia misteriosa embala-me
O tempo flui pelos nossos corpos
Os primeiros raios de sol batem à janela
É o amanhecer, que quer entrar
O despertar é sempre difícil
Oraste ao teu Deus secreto
Seguras as tuas lágrimas
Enquanto me apertas as mãos
Os teus lábios estendem-se num adeus
Que se presume breve
Ficas tão bela
Nessa tua imagem perfeita
De quem transparece o desejo
Gritamos por dentro, para não sermos ouvidos
Eu serei o teu sólido fundamento
Vou manter o equilíbrio
Se tu não olhares para baixo
Valeu a pena no final
Quando todas as estrelas se vão embora
Tu ainda brilhas
posted by Henrique at 19:00

16/04/09

DACHAU – Campo de Concentração


Tive muito recentemente, a possibilidade de visitar, na Alemanha, o campo de concentração em Dachau, nos subúrbios de Munique. A sensação que se apodera de nós, quando transpomos os portões é algo de indescritível. A cada passo, a cada metro percorrido, o tempo parece voltar para trás.

Documentei-me e preparei-me para o impacto. Em muitos documentos que encontrei descobri que o projecto deste campo de concentração serviu de base para outros que se seguiram. Dachau chegou a abrigar mais de duzentos mil prisioneiros de mais de trinta países e, a partir de 1941, foi usado para o extermínio de cerca de trinta mil pessoas.

Em 29 de Abril de 1945, a 42ª Divisão de Infantaria do Exército dos Estados Unidos, com o nome Rainbow foi encarregada de libertar o campo de concentração. A partir de 1948, o campo de Dachau foi usado como campo de refugiados, situação que perdurou até cerca da década de 60, onde se erigiu o Memorial que hoje existe. Dachau é célebre não só por ter sido um dos maiores campos de concentração nazis, mas também por ter sido o primeiro a ser construído no regime hitleriano. 

Tem uma câmara de gás, apesar de constar que nunca foi usada, facto que não acredito, pelo que consta nas inscrições à entrada da câmara:

“This is where the victims were to leave their clothes before entering the gas chamber disguised as “showers”. Their clothing was to be brought to the disinfecting chambers before the next group could enter the room” - Aqui era onde as vítimas deixavam as suas roupas antes de entrarem na Câmara de gás, disfarçada de chuveiros. As suas roupas eram levadas para a câmara de desinfestação antes do próximo grupo entrar.

“This is where the victims were to be informed on using the supposed showers” - Aqui era onde as vítimas eram informadas sobre a utilização dos supostos chuveiros.

“This is where the dead were to be brought before they were cremated“ - Aqui era para onde os mortos eram trazidos antes de serem cremados.

Penso que estas frases não nos deixam dúvidas quanto à utilização da câmara de gás. Numa outra ala do campo de concentração situa-se o Crematório. Nunca fiquei tanto tempo a olhar para um simples forno. Todas as imagens que passaram na minha cabeça terminavam ali, reduzidas a cinzas. Os inocentes, os que fugiam à espécie, os que fisicamente não correspondiam aos parâmetros arianos, todos acabavam naquele lugar.

Recuso-me a aceitar a humanidade desta forma. Nos dias de hoje mantêm-se as marcas que o tempo ousou em não apagar, os cravos criteriosamente colocados na pedra da camarata n.º 21 são a prova de quem viveu ou conheceu alguém que passou por aquelas paredes. O que um semelhante pode e consegue fazer a outro é realmente espantoso. Ainda bem que estes lugares não foram apagados da história. Louvo a atitude da Alemanha em manter vivos e acessíveis todos estes locais, para que possamos ter tempo, para pensar e repensar o valor que tem a vida de um homem, de uma mulher… de uma criança.

Entrar num campo de concentração, não é como entrar em Alcatraz (São Francisco - Califórnia) e observar as celas onde estiveram alojados alguns dos maiores criminosos norte-americanos, como Al Capone, Robert Franklin Stroud.

Entrar num campo de concentração é tentar descobrir o porquê de ter de morrer à fome, queimado ou nas câmaras de gás, só por ter nascido de forma diferente, com olhos de outra cor, com ideologias diferentes ou mesmo até, por antipatia mas… atenção… estamos no Sec. XXI e ainda temos disso… infelizmente.
posted by Henrique at 23:30

01/04/09

IN TEMPORE II

Ontem foi e será a história, que o tempo escreveu
Palavras, cujo significado ninguém sabe
No momento em que as deixas escapar
escreves mais uma frase, mais uma sentença
Hoje lembras-te com ternura, do que aconteceu
É com um sorriso e a alegria, que te são peculiares
que exaltas em mim, a saudade
a esperança, de te alcançar
O amanhã não será diferente, se quisermos
Continuarás sempre sublime e afectiva
nesse teu jeito de amar
É essa glória que temos
Nos caminhos da vida
Que juntos iremos abraçar
posted by Henrique at 01:34

30/03/09

BEIJO

Beijo, esse gesto
que enlouquece
enternece e abraça
Dois lábios
Sábios
que a boca entrelaça
Fugazes, audazes
atalham caminho
até ao coração
Beijo
Molhado, colado
que a língua não poupa
Subtis na atitude
de a deixar louca
nesse momento, desejado
Beijo
Tu que caminhas
pelo desconhecido
Que não sabes
o que vais encontrar
Adivinhas!?
Que te sirva de aviso
Não te voltarei a lembrar
posted by Henrique at 22:00

29/03/09

IN TEMPORE

Que nome te hei-de dar
para que nunca te esqueças de mim
Palavras que o tempo teimou em levar
Foram poucas, curtas, mas intensas
Talvez perdidas pelo caminho,
que tardei em encontrar
O toque e olhar estão depositados em ti
como se alguma vez tivessem acontecido
Enquanto a minha mão desliza,
suavemente pela tua face
os meus olhos cruzam os teus, com meiguice
Sinto o respirar, no aconchego de um abraço
É um momento, como tantos outros
Em que te imagino
O vento passa por nós e empurra-nos
Contra o pensamento
De uma forma avassaladora
Um rio, uma ponte que nos separa da eternidade
Uma água que corre entre nós
Um carinho e uma saudade
Que faz de ontem o agora
É assim, uma forma de ser e de estar
Que, como comecei
Não sei!
Que nome te hei-de dar
posted by Henrique at 16:05

18/03/09

ENTREVISTA COM O DIABO

Não sei bem o que se passou comigo naquela manhã de Dezembro, só sei que andava eu pelas ruas da Baixa, quando de repente senti uma pancada na cabeça.

Tentei levantar-me, mas não consegui mexer um dedo. Pensei: - Ok! Toni, estás morto! E estava mesmo. Mas porquê? O que realmente aconteceu? Bom, ouvi dizer que quando uma pessoa morre se eleva no espaço, libertando-se do corpo. Foi o que aconteceu, vi-me a subir no ar e foi nesse momento que reparei, que no meu corpo, inerte, estava um semáforo em cima das minhas costas. Pela confusão instalada apercebi-me que tinha sido um autocarro de dois andares, cabriolet, daqueles que levam os turistas às zonas mais engraçadinhas de Lisboa. O impacto foi de tal maneira forte que havia turistas e máquinas fotográficas espalhadas por todos os lados.

Nesta minha viagem inesperada entrei por um túnel. Ainda pensei que... se não ia para o céu, por que é que tinha de ir pelo túnel do Rossio para o inferno.

Aquilo fez-se bem, e rápido, momentos depois estava à entrada de um portão enorme, em ferro, com umas lanças que mais pareciam espetos, numa qualquer casa de frangos assados. Havia uma fila enorme de homens e mulheres, trocavam-se olhares, sorrisos e alguns até choravam. Tirei uma senha vermelha com o n.º 123.456. Pensei para comigo - Parece-me pouca gente! Só mais tarde é que vi um placar que tinha a seguinte legenda: "MORTE POR ACIDENTE - Abertas inscrições para os que morreram entre as 12H45 e as 12H46".

Sentei-me numa cadeira e esperei calmamente a minha vez. Ao fim de duas horas ouvi um berro.
- António de Jesus!!!!
- Sou eu. Respondi ainda mais alto.
- Dirija-se ao gabinete n.º 2.
E lá fui eu. Quando cheguei ao gabinete a porta encontrava-se fechada, bati, voltei a bater e... entrei, pois claro. Apareceu um homem que me mandou sentar.
Eu simulei ficar impávido, mas o sangue fervia-me nas artérias, precipitando-se para os órgãos previsíveis. Quando o homem regressou trazia com ele um tipo meio esquisito que mais parecia o diabo. Parecia não, era mesmo o gajo em pessoa.
Diabo: Você tem aqui um lindo currículo, sim senhor. Receio que não tenha boas novidades para si.
Toni: Mas olhe que esse currículo está adulterado. É de um vizinho meu, que me pediu para eu enviar para umas pizzarias. Veja lá que o gajo nem carta de mota tem.
Diabo: Sim... sim... irrelevante meu caro, irrelevante.
Toni: Eu sempre fui um homem honesto, amigo dos animais. Nunca roubei, nem menti...
Diabo: Ai sim!!! Então e o que é isto aqui? Deixe-me ler melhor... pois... abandonou um local de acidente, fugiu à polícia... bem... por aí... por aí...
Toni: Nada disso. Eu vou contar-lhe como aconteceu. Um condutor que circulava numa cadeira de rodas entrou em contramão num acesso à A1, no sentido Lisboa-Porto. Eu que vinha a conduzir o meu camião, descansadinho, a falar com um amigo meu pelo telemóvel, quando reparei no gajo da cadeira de rodas não consegui evitar o acidente.
O condutor da cadeira de rodas depois de colidir comigo a grande velocidade ainda se pôs em fuga. A GNR quando chegou ao local, depois de eu ter contado o sucedido, ainda confirmou que tinha visto um condutor numa cadeira de rodas a fazer sinais de luzes e a acenar.
Diabo: Hummm... isso parece-me história.
Toni: Juro-lhe. Até lhe digo mais, lembro-me perfeitamente das horas que eram, porque o relógio está parado há 5 anos e os ponteiros não avançam nem um segundo.
Diabo: Bom, Sr. António de Jesus... Epá... este apelido aqui no inferno não me agrada... Quem foi o autor de tal apelido?
Toni: A minha mãe, sr. Diabo.
Diabo: Como é que ela se chama?
Toni: Chamava-se Maria de Fátima.
Diabo: Estamos pior... Vou ter de lhe ler a sentença.
Toni: Espere!! O meu pai é que era um santo. Chamava-se Luís Judas.
Diabo: Ah! Esse apelido soa-me bem. O que é que o seu pai fazia na vida?
Toni: Era carpinteiro.
Diabo: ???? Carpinteiro????
Toni: Sim. Mas era só ajudante. Segurava nos pregos enquanto o outro martelava.
Diabo: Já estou farto de si homem. O que quer fazer aqui em cima?
Toni: Não sei ainda. Aqui ganha-se bem? Ou nem por isso?
Diabo: Paga-se pouco, mas se for ali para a porta do lado, onde andam os anjinhos... não ganha nada. Agora escolha. Onde quer ficar?
Toni: Fico aqui. Qual é a minha pena?
Diabo: Vai ser condenado à morte.
Toni: Outra vez?
Diabo: Já tinha sido antes?
Toni: Não. Mas em pouco tempo é a 2.ª vez que vou morrer. Quando é que a sentença vai ser executada?
Diabo: Hoje.
Toni: Seja, então. Como vai ser?
Diabo: Com Cicuta.
Toni: Está bem. Pelo menos é diferente.
O diabo toca um pequeno sino que tem na secretária, um homem aparece com um copo de água na mão.
Diabo: Tome, beba e mexa bem, que às vezes o veneno fica no fundo.
posted by Henrique at 22:00